Orange Wine Quest – IV

Em 2010 visitei a London International Wine Fair atrás das últimas tendências do mundo do vinho: o tão maduro e aberto mercado inglês é o ambiente perfeito para este tipo de pesquisa. Dou muito valor para o networking junto aos meus colegas da indústria, para ouvir a opinião de profissionais experientes ou de quem vive “no lugar”.  Pois bem, ao sair maravilhado dos stands dos produtores da Croácia e da Eslovênia na feira, encontro um amigo sommelier, na verdade o sommelier de um dos melhores restaurantes da Inglaterra, o The Fat Duck. Ao questioná-lo sobre o que seria “the next big thing”, ele sorri e sentencia: “A Eslovênia”!  

Afortunadamente, não havia nada de Eslovênia no mercado brasileiro naquela altura. Volto a degustar todos os vinhos de cada um dos melhores produtores do país com meu amigo, professor, anfitrião na série “Orange Wine Quest” que aqui relato, e desbravador de vinhos Stefano Zannier, também presente na LIWF.

Não havia um produtor mais apaixonante, consistente e típico do que Marjan Simčič. Ao lado de sua igualmente incrível esposa Valerja, Marjan falava de cada vinho com uma paixão arrebatadora, até hoje desconheço um produtor que ame os seus “filhos” com tanta intensidade e convicção como ele.

A NOVA “BOLA DA VEZ” ESLOVÊNIA

Nas diversas palestras que ministrei desde que inauguramos a importação destes vinhos surpreendentes no Brasil, sempre me impressionou o encantamento mesmo dos degustadores mais experimentados perante aos brancos e tintos apresentados, e também o total desconhecimento do brasileiro em relação à Eslovênia como um todo.

Muitos acreditam que a vinicultura começou ali depois da Eslovênia se tornar a primeira república independente da Iugoslávia em 1991, mas na verdade, as antigas tribos dos celtas e dos ilírios que habitavam aquela região na confluência dos Alpes, do Mediterrâneo e dos Balcãs já cultivavam e fermentavam uvas muito antes da chegada dos romanos!

Após a 2ª Guerra Mundial a produção eslovena ficou na mão das cooperativas, preconizando o volume, ainda que alguns grandes vinhos eram elaborados na zona de Podravje. Em 1967, no entanto, a Eslovênia lançou um selo de qualidade, propiciando o desenvolvimento de vinícolas privadas na década de 70. Já como República da Eslovênia, o país assume posição de destaque na região, com leis inteligentes e bem fiscalizadas, produtores ambiciosos e enorme potencial natural.

Para um país com a área equivalente ao menor estado brasileiro, o Sergipe (fora o DF), a Eslovênia apresenta dados impressionantes quando o assunto é o vinho. A área plantada é de 24 mil hectares, bastante fragmentada (ver mapa), mas praticamente o dobro da área plantada com Vitis vinifera em todo o Brasil. A produção anual é de 0,8 milhão de hectolitros, dos quais 3/4 de vinhos brancos. Apenas 5% da produção é exportada, devido à abertura recente aos países ocidentais e ao forte consumo interno, isto mesmo, a Eslovênia possui o 6º maior consumo per capita do mundo, com 37,34 litros/ano.

Vinhedos por todos os cantos na bela Eslovênia. Quanta sorte de ter 2/3 do renomado Collio do lado de cá da fronteira, sob o nome de Goriška Brda!

 

UM FURACÃO CHAMADO MARJAN SIMČIČ

Visitar Marjan na sua vinícola em Ceglo na Eslovênia foi uma experiência tão visceral como eu imaginava! Horas e horas de muitas amostras de tanque, de botti, garrafas velhas puxadas da adega da família, comida e boas risadas compartilhadas, enfim, uma visita memorável, de profundo aprendizado. Marjan e Valerja são fluentes em italiano e inglês, como boa parte dos habitantes deste país de excelentes indicadores socioeconômicos. O eloquente e empolgante Marjan é de uma assertividade incrível, tal como seus vinhos que estão a abalar as estruturas do Velho Mundo.

Marjan é um maluco apaixonado pelo vinho, pelo que faz, pelo seu território! Seu entusiasmo em nos receber fez com que a “coleção da família” diminuísse em algumas garrafas…

Marjan Simčič “foi a chave do sucesso da região de Goriška Brda”, quando ainda nos seus 20 anos assumiu a vinícola de 1860 da família e iniciou “uma revolução enológica, mudando o perfil da região e elevando-a ao primeiro nível nacionalmente e internacionalmente”, segundo a Decanter Magazine. O irrequieto Marjan experimentou muito, e com suas uvas perfeitas de cultura ecológica, achou um caminho entre o esloveno prístino, com longuíssimas macerações e exposição ao oxigênio, e o contemporâneo sedutor.

São apenas 18 hectares de vinhedos trabalhados naturalmente, há muitos anos sem emprego de nenhum fertilizante ou pesticida químico. Seria mesmo um pecado não respeitar ao máximo aquela natureza abençoada. Afinal, a região de Goriška Brda é simplesmente a maior porção do renomadíssimo Collio da Itália, uma terra de imensa vocação para grandes vinhos, com solos de marga calcária pedregosos denominados “opoka” em Brda e “ponca” no Collio, e um clima moderado pelo sol e ventos mediterrâneos.  Parece que ali é onde os Alpes dão as mãos ao Mediterrâneo e combinam de criar uvas absolutamente perfeitas…

A danada da opoka, ou ponca do lado italiano… Um tipo de Flysch de marga calcária da emersão de depósitos marinhos com a orogênese dos Alpes. Um grande, grande solo que limita o vigor das videiras, estressando-as no ponto certo, e conferindo uma mineralidade contundente aos vinhos.

ME COLOQUEM ÀS CEGAS, POR FAVOR!

Me pergunto onde no Velho Mundo se degusta de um mesmo produtor: um Sauvignon Blanc no nível de complexidade de um top de Sancerre, um Chardonnay que evoca os melhores terroirs da Borgonha, um Pinot Noir que já arrancou aplausos de Steven Spurrier – o elencou como “Best Old World Red” na Decanter – e da Jancis Robinson, e um Merlot, ah, um Merlot que pela elegância, profundidade, terrosidade, equilíbrio e persistência pode ser confrontado com os melhores tintos do Pomerol, do Friuli ou da Toscana, as referências clássicas desta uva no continente europeu? Estes são vinhos que devem ser colocados lado a lado com os clássicos para se fiar na grandiosidade do terroir de Brda!!!

JÁ BEBEU UM “SUCO DE SOLO” ???

E quando nos deparamos com as uvas autóctones da região, o coração bate ainda mais forte! Parece que ainda está no meu nariz o aroma de bosque úmido, de ervas balsâmicas, caroço do pêssego, amêndoa amarga e maçã madura do Sauvignonasse 2013 sangrado do tanque por Marjan, a minha vontade era de nadar dentro daquilo!!! A Sauvignonasse, ex-Tocai Friulano ou Zeleni Sauvignon, embora não originária da região, está bem adaptada ao Collio/Brda desde o início do séc. XIX. Mas a grande casta autóctone deste cantinho sem igual no planeta é a Rebula, ou Ribolla Gialla, do lado de lá da fronteira. Mormente vinificada com maceração das cascas, é um dos vinhos mais “terroir-driven” que conheço. Marjan me ofereceu uma Rebula Opoka assim: “beba o suco do solo, o gosto puro do cheiro da opoka depois da chuva” !!! Realmente é isto, a uva Rebula, com seu perfil mais contido do que exuberante, é um veículo mais do que um protagonista, um fone Sennheiser para se escutar fidedignamente cada dissonante no arranjo da música da terra…

Acompanhar Marjan na sua cantina vale mais do que ler 100 livros sobre os vinhos da Eslovênia!!! Uma experiência totalmente visceral…

E assim me despeço de Brda rumo ao Carso na Itália, para o nosso próximo capítulo na Orange Wine Quest. Deixo para trás um pôr-do-sol dramático nas colinas de Brda, consolado por um retro-gosto de frutas amarelas e laranjas maduras, de feno, flores secas, pedra lascada, queijo e cogumelos da Rebula…

Um lugar chamado Goriška Brda!

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Orange Wine Quest – III

Visitar Josko Gravner no seu reino de Oslávia é o ápice na carreira de qualquer amante do vinho de verdade, o pináculo da emoção de escutar o vinhateiro mais sábio e revolucionário e ao mesmo tempo o mais humilde do mundo, é a culminação da alegria de saber que nem tudo neste mundo é governado pelos interesses comerciais, que é possível sonhar!!!

Quando se visita Josko, o melhor é deixar-se levar pelos sentidos, guardar o caderno de provas, o bloquinho de anotações, e sentir. Sentir a sua “anima” fluir em uníssono com a dele, num ambiente mágico de tirar o fôlego, de arrancar as lágrimas e aquele “uaaaau” que vem lá de dentro do seu peito.

Um ambiente mágico que nos põe a repensar sobre o passado e o futuro do mundo do vinho

A SIMPLICIDADE É TUDO NO FINAL DAS CONTAS

Quando o meu caminho cruzou com o de Josko a primeira vez, em uma degustação em San Marino em 1997, me espantou a sua desafetação e candura ao se apresentar para um grupo de mais de cem pessoas que aguardava o “melhor produtor de vinhos brancos da Itália” no palco: “sou um pequeno vinhateiro da fronteira da Itália com a Eslovênia”. “O que é isso? Você é o cara, o mais premiado em todos os guias italianos, o enólogo com alocação garantida de cada mililitro de vinho que coloca no mercado!!!” pensei, tentando compartilhar minha inquietação com os vizinhos de prova.

Mas Josko é assim. Alguém que nos abala com a sua perturbadora modéstia. A ponto de não deixar a vaidade de estar na crista da onda nos anos 80 obnubilar o seu rumo que parecia incontornável de produzir grandes vinhos técnicos, “a exata tipologia que o mercado pedia”. Zarpou para a Califórnia em 1987, e na volta, confidenciou à sua esposa: “esta viagem foi fundamental para mim”, e aí imagino a doce Maria voltando-se atônita antes da frase ser completada por Josko: “aprendi o que não se deve fazer”.

E dessa forma os tanques de inox, as pequenas barricas e todos os artifícios da enologia moderna acabaram banidos da cantina Gravner nos anos 90, e como era de se esperar, seus vinhos foram sumariamente excluídos dos guias ou severamente desaprovados pelos críticos que sempre os aclamaram.

O ponto de inflexão na vida de Josko estava próximo, e ao contrário de sua malfadada jornada à Califórnia, as seis viagens à República da Geórgia em 2000 foram reveladoras, descortinaram os novos rumos a seguir: voltar às origens da vitivinicultura em busca da simplicidade de se elaborar um vinho prístino, autêntico, transparente ao terroir.

Dou a palavra então a Josko, as suas frases ainda ecoam na minha alma, e que ele me perdoe se não forem ipsis litteris, contemplativo como eu estava naquela visita tão inebriante…

“A simplicidade é tudo, ela é sinônimo de qualidade no vinho”

“Eu fui para a Geórgia para entender o vinho. Entender o vinho é entender a sua história”

“O Cáucaso tem 5.000 anos de tradição. Quem busca água pura deve ir à nascente, não à foz de um rio”

“Na escola de enologia moderna se aprende a fazer um vinho sem defeitos. Mas um vinho não deve apenas não ter defeitos, deve ter alma”

“Não existe vinho natural ou industrial. Existe vinho. Se é vinho, é natural, se não é natural, não é vinho”

“O que se chama atualmente de mundo do vinho está perdendo a ética”

“Eu mesmo caí na armadilha de usar tanques de inox, hoje me envergonho, mas erros são necessários na nossa trajetória. Parei com os metais”

“Certamente a tecnologia nos proporcionou coisas incríveis, mas em relação aos alimentos e ao vinho, sou totalmente contrário, pois eles terminam no nosso estômago. Dali em diante, se não forem as bactérias, as leveduras e os enzimas, não há vida. Não uso então de nenhum artifício que possa inibir a ação destes elementos”

“Além de uva, o único ingrediente que entra na minha cantina é um pouco de enxofre. Achei que poderia fazer vinho bom sem sulfurosa, mas estava errado. A razão é histórica: negar o uso de enxofre é degradar 2.000 anos de luta dos homens para fazer bons vinhos, desde que descobriram esta prática”

“O produto primário da uva é o vinagre, o mosto em fermentação gera um pouco de sulfurosa como autodefesa e parece pedir: dê-me mais um pouco que eu te farei um bom vinho”

“Em busca do recipiente idôneo para desenvolver o vinho, cheguei nas ânforas. O porquê das ânforas? Simples: a terra é necessária para nascer a uva boa, e a terra é novamente necessária para nascer o vinho. O círculo se fecha com uma simplicidade desconcertante”

“As ânforas eliminam a participação humana, os controles de temperatura, de acidez, etc. Elas amplificam a qualidade das uvas que você colheu, para o bem ou para o mal”

“As ânforas de terracota da Geórgia não possuem cádmio e chumbo na composição”

“Há 1.300 anos surgiram os barris de madeira, antes os vinhos nasciam em ânforas. Os recipientes modernos surgiram há décadas e serão os primeiros a serem eliminados”