Para os vinhos, a barrica deve ser como maquiagem em moça bonita…

Woman sniffing red wine in a glass, close up

Já aconteceu de você ir a uma loja ou supermercado onde algum vendedor lhe ofereceu um vinho barricado custando trinta ou quarenta reais? Normalmente dizem (ou está escrito no contrarrótulo) que “…este vinho permaneceu por 3 meses em barricas de carvalho francês (ou americano) conferindo-lhe notas de baunilha…”, já passou por esta experiência? Pois bem, falemos então sobre barricas e vinhos barricados para depois continuarmos!

Carvalho é o nome popular de árvores pertencentes ao gênero Quercus, da família das Fagáceas, usadas para a confecção de barricas e toneis destinados ao amadurecimento de vinhos. Apenas três espécies de fato interessam para a tanoaria, que são: Quercus alba (o carvalho norte-americano), o Quercus sessiliflora e Quercus pedunculata (ambos europeus).

Hoje em dia, as razões para se utilizar barricas são os benefícios que esta prática traz à bebida. A porosidade da madeira permite uma micro-oxigenação ao vinho ali guardado e, lentamente, amacia os taninos tornando-o mais “redondo”, menos agressivo; também auxilia na estabilização da cor – em especial dos tintos – permitindo que os taninos e os antocianos interajam por um processo chamado de ligação oxidativa, tornando a cor mais estável e durável; contribui para o surgimento de novos aromas e sabores devido às características da madeira transferidas ao vinho. Dependendo da quantidade de vezes que o recipiente foi usado e o tempo que o vinho passou ali dentro, pode aportar mais ou menos destas características. Resumindo, o estágio do vinho na barrica serve para “domá-lo” e torná-lo melhor, mais rico. Contudo, não é qualquer vinho que tem condições de passar por madeira. O vinho precisa nascer grande para que a barrica o deixe maior ainda.

Uma barrica francesa de bom fabricante com capacidade para 225 ou 300 litros custa cerca de 3.000 reais, podendo custar bem mais se for de alguma floresta especial ou tanoaria de grife. É utilizada apenas quatro vezes em média. Ainda sobre custos, é necessário considerar a perda de vinho que se tem ao encher os recipientes de madeira. Logo de início, ocorre uma diminuição significativa do volume devido à absorção do vinho pela madeira, também ocorre evaporação levando a perder cerca de 5% do volume ao ano.

Pois bem, voltemos então à questão antiga. Lembra?

Se a barricagem é para tudo aquilo que está apresentado no terceiro parágrafo e custa o que está no quarto, como é que um vinho barricado pode custar uns trinta reais? Só se for por mágica! A conta não fecha.

Para os vinhos baratinhos apresentarem alguns aromas de carvalho existe uma fórmula muito mais em conta que as caras barricas, os famosos e polêmicos chips de carvalho, que podem ter a forma de cubos, lascas, tábuas ou serragem. São mergulhadas nos tanques de inox permanecendo ali até que algumas características da madeira sejam transmitidas ao vinho (apenas sabor e aroma, a ligação oxidativa e outros benefícios não ocorrem).

Na minha opinião, quando usados com critério, não há demérito algum, tampouco é desonesto usar chips de carvalho para dar uma melhorada nos vinhos simples. Já bebi inúmeros vinhos produzidos assim e achei muitos deles excelentes pela proposta que traziam, o erro está em fazer uso desta prática e não informar adequadamente ao consumidor, vendê-lo como se fosse barricado.

Melhor é beber um bom vinho sem madeira do que outro com madeira mal integrada, encobrindo a tipicidade da variedade da uva ou do terroir. É isso que acontece quando os chips são usados de forma equivocada por produtores que abusam desta prática ou até mesmo aqueles vinhateiros que, embora utilizem barricas, deixam seus vinhos ali por períodos maiores do que deveriam.

Quem disse que vinho bom é vinho barricado!? Lembra que escrevi nas linhas anteriores que a barrica serve para agigantar ainda mais o gigante? É como maquiagem em moça bonita, apenas a deixa mais exuberante! Não precisa supervalorizar o carvalho, não é ele quem faz o bom vinho, e sim, todo um contexto que o cerca desde o vinhedo.

Caso tenha ficado curioso e queira conferir se existem mesmo grandes vinhos sem passagem por barricas, temos alguns produtores em nosso catálogo que aboliram o carvalho de suas cantinas, entre eles, o mais revolucionário enólogo do Chile e um dos 30 mais influentes do mundo pela Decanter inglesa, Marcelo Retamal, se estabeleceu no Vale de Elqui para dar forma a um projeto incrível chamado Viñedos de Alchohuaz. Estes vinhos totalmente naturais nascem com mínima intervenção no vinhedo e na adega, uma gruta de pedra perfurada na montanha. As uvas são pisadas em lagares de pedra como no passado. Seus vinhos alcançaram pontuações altíssimas no principal guia especializado chileno, o Guía Descorchados. Outro que merece destaque é Alessandro Dettori, um dos produtores mais originais e respeitados da Sardegna, dentre suas práticas estão: maceração sem sulfurosa em tanques inertes, nenhuma adição de produtos químicos, leveduras ou enzimas, nem coadjuvantes enológicos. Seus vinhos não são clarificados ou filtrados e, é claro, não são barricados.

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O INDESEJÁVEL CICLO VICIOSO

Já parou para pensar como as repetições em nosso cotidiano nos transforma em elementos quase robotizados? Parece viciar nossa consciência naquela rotina de pensamento que aos poucos vai deixando evidente que quanto mais se repete algo menos se precisa pensar para realizá-las. Muitas das vezes trabalhamos, dirigimos, falamos ou comemos de forma “automática” nos levando a não sentir o prazer que existe no que fazemos no dia-a-dia. Este ciclo vicioso se torna autônomo a ponto de nos tirar o desejo de experimentar algo novo ou rever a forma como realizamos nossas tarefas.

Uma grande parcela dos consumidores de vinhos tem por característica adotar uma cartilha e nunca ou raramente se arrisca a experimentar algo diferente, quando acontece, a maior aventura é sair do Chile e comprar um australiano (o que já é uma mudança!). O problema é quando se está tão “viciado” na rotina de beber sempre os mesmos até que estes se tornem a referência máxima para julgamento dos demais.

O grande barato do vinho é exatamente este gigantesco mosaico de possibilidades que ele permite. A frustração por ter errado na escolha faz parte e torna o ato de beber vinhos ainda mais emocional! Afinal, não se joga um vinho na pia com a ausência de sentimento que se faz com a cerveja.

Se por um acaso você está habituado a não se arriscar na compra de uma garrafa que tenha sido produzido em um país com pouca tradição ou se evita algum vinho por conhecer pouco acerca do local de onde ele venha é certo que estará evitando surpresas desagradáveis, mas também não terá as boas.

Somente no Leste Europeu existem muitos países que produzem verdadeiras maravilhas, portanto, o costume de apenas consumir italianos, franceses, espanhóis… impede que estes tesouros sejam explorados.

Países como Áustria, Eslovênia, Grécia, Hungria e muitos outros são os últimos a virem à mente quando se pensa em vinhos mesmo tendo um histórico vitivinícola de quase três mil anos de tradição. A Croácia, por exemplo, cujas primeiras videiras foram plantadas pelos Fenícios, já exerceu importante papel no cenário do vinho europeu com suas maravilhosas uvas autóctones Plavac Mali e Dobricic (tintas) além da Posip (branca). No caso de Eslovênia, os Celtas já produziam vinhos ali antes dos romanos, tem a região de Primorska como a mais prestigiada do país pela elevada qualidade dos vinhos produzidos, brancos estupendos predominam sem ofuscar os elegantes e profundos tintos. Já na Áustria existe um emaranhado de uvas, vão desde as emblemáticas locais às mais badaladas internacionais como Chardonnay, Pinot Noir, Cabernet Sauvignon… sua maior estrela é a branca Grüner Veltliner, outras nativas de destaque são Zweigelt e Welschriesling. Fonte quase inacabável de estilos, tipos e sabores graças as muitas variedades de castas existentes no país. Os Húngaros começaram a produzir vinhos com Botrytis duzentos anos antes dos franceses e cem anos antes dos alemães. Se não bastasse, fazem também tintos únicos.

Te convido a começar uma viagem por locais pouco comuns, varie, mude, volte ao mesmo, varie novamente, garimpe, decepcione-se, surpreenda-se… faz parte!

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Orange Wine Quest – IV

Em 2010 visitei a London International Wine Fair atrás das últimas tendências do mundo do vinho: o tão maduro e aberto mercado inglês é o ambiente perfeito para este tipo de pesquisa. Dou muito valor para o networking junto aos meus colegas da indústria, para ouvir a opinião de profissionais experientes ou de quem vive “no lugar”.  Pois bem, ao sair maravilhado dos stands dos produtores da Croácia e da Eslovênia na feira, encontro um amigo sommelier, na verdade o sommelier de um dos melhores restaurantes da Inglaterra, o The Fat Duck. Ao questioná-lo sobre o que seria “the next big thing”, ele sorri e sentencia: “A Eslovênia”!  

Afortunadamente, não havia nada de Eslovênia no mercado brasileiro naquela altura. Volto a degustar todos os vinhos de cada um dos melhores produtores do país com meu amigo, professor, anfitrião na série “Orange Wine Quest” que aqui relato, e desbravador de vinhos Stefano Zannier, também presente na LIWF.

Não havia um produtor mais apaixonante, consistente e típico do que Marjan Simčič. Ao lado de sua igualmente incrível esposa Valerja, Marjan falava de cada vinho com uma paixão arrebatadora, até hoje desconheço um produtor que ame os seus “filhos” com tanta intensidade e convicção como ele.

A NOVA “BOLA DA VEZ” ESLOVÊNIA

Nas diversas palestras que ministrei desde que inauguramos a importação destes vinhos surpreendentes no Brasil, sempre me impressionou o encantamento mesmo dos degustadores mais experimentados perante aos brancos e tintos apresentados, e também o total desconhecimento do brasileiro em relação à Eslovênia como um todo.

Muitos acreditam que a vinicultura começou ali depois da Eslovênia se tornar a primeira república independente da Iugoslávia em 1991, mas na verdade, as antigas tribos dos celtas e dos ilírios que habitavam aquela região na confluência dos Alpes, do Mediterrâneo e dos Balcãs já cultivavam e fermentavam uvas muito antes da chegada dos romanos!

Após a 2ª Guerra Mundial a produção eslovena ficou na mão das cooperativas, preconizando o volume, ainda que alguns grandes vinhos eram elaborados na zona de Podravje. Em 1967, no entanto, a Eslovênia lançou um selo de qualidade, propiciando o desenvolvimento de vinícolas privadas na década de 70. Já como República da Eslovênia, o país assume posição de destaque na região, com leis inteligentes e bem fiscalizadas, produtores ambiciosos e enorme potencial natural.

Para um país com a área equivalente ao menor estado brasileiro, o Sergipe (fora o DF), a Eslovênia apresenta dados impressionantes quando o assunto é o vinho. A área plantada é de 24 mil hectares, bastante fragmentada (ver mapa), mas praticamente o dobro da área plantada com Vitis vinifera em todo o Brasil. A produção anual é de 0,8 milhão de hectolitros, dos quais 3/4 de vinhos brancos. Apenas 5% da produção é exportada, devido à abertura recente aos países ocidentais e ao forte consumo interno, isto mesmo, a Eslovênia possui o 6º maior consumo per capita do mundo, com 37,34 litros/ano.

Vinhedos por todos os cantos na bela Eslovênia. Quanta sorte de ter 2/3 do renomado Collio do lado de cá da fronteira, sob o nome de Goriška Brda!

 

UM FURACÃO CHAMADO MARJAN SIMČIČ

Visitar Marjan na sua vinícola em Ceglo na Eslovênia foi uma experiência tão visceral como eu imaginava! Horas e horas de muitas amostras de tanque, de botti, garrafas velhas puxadas da adega da família, comida e boas risadas compartilhadas, enfim, uma visita memorável, de profundo aprendizado. Marjan e Valerja são fluentes em italiano e inglês, como boa parte dos habitantes deste país de excelentes indicadores socioeconômicos. O eloquente e empolgante Marjan é de uma assertividade incrível, tal como seus vinhos que estão a abalar as estruturas do Velho Mundo.

Marjan é um maluco apaixonado pelo vinho, pelo que faz, pelo seu território! Seu entusiasmo em nos receber fez com que a “coleção da família” diminuísse em algumas garrafas…

Marjan Simčič “foi a chave do sucesso da região de Goriška Brda”, quando ainda nos seus 20 anos assumiu a vinícola de 1860 da família e iniciou “uma revolução enológica, mudando o perfil da região e elevando-a ao primeiro nível nacionalmente e internacionalmente”, segundo a Decanter Magazine. O irrequieto Marjan experimentou muito, e com suas uvas perfeitas de cultura ecológica, achou um caminho entre o esloveno prístino, com longuíssimas macerações e exposição ao oxigênio, e o contemporâneo sedutor.

São apenas 18 hectares de vinhedos trabalhados naturalmente, há muitos anos sem emprego de nenhum fertilizante ou pesticida químico. Seria mesmo um pecado não respeitar ao máximo aquela natureza abençoada. Afinal, a região de Goriška Brda é simplesmente a maior porção do renomadíssimo Collio da Itália, uma terra de imensa vocação para grandes vinhos, com solos de marga calcária pedregosos denominados “opoka” em Brda e “ponca” no Collio, e um clima moderado pelo sol e ventos mediterrâneos.  Parece que ali é onde os Alpes dão as mãos ao Mediterrâneo e combinam de criar uvas absolutamente perfeitas…

A danada da opoka, ou ponca do lado italiano… Um tipo de Flysch de marga calcária da emersão de depósitos marinhos com a orogênese dos Alpes. Um grande, grande solo que limita o vigor das videiras, estressando-as no ponto certo, e conferindo uma mineralidade contundente aos vinhos.

ME COLOQUEM ÀS CEGAS, POR FAVOR!

Me pergunto onde no Velho Mundo se degusta de um mesmo produtor: um Sauvignon Blanc no nível de complexidade de um top de Sancerre, um Chardonnay que evoca os melhores terroirs da Borgonha, um Pinot Noir que já arrancou aplausos de Steven Spurrier – o elencou como “Best Old World Red” na Decanter – e da Jancis Robinson, e um Merlot, ah, um Merlot que pela elegância, profundidade, terrosidade, equilíbrio e persistência pode ser confrontado com os melhores tintos do Pomerol, do Friuli ou da Toscana, as referências clássicas desta uva no continente europeu? Estes são vinhos que devem ser colocados lado a lado com os clássicos para se fiar na grandiosidade do terroir de Brda!!!

JÁ BEBEU UM “SUCO DE SOLO” ???

E quando nos deparamos com as uvas autóctones da região, o coração bate ainda mais forte! Parece que ainda está no meu nariz o aroma de bosque úmido, de ervas balsâmicas, caroço do pêssego, amêndoa amarga e maçã madura do Sauvignonasse 2013 sangrado do tanque por Marjan, a minha vontade era de nadar dentro daquilo!!! A Sauvignonasse, ex-Tocai Friulano ou Zeleni Sauvignon, embora não originária da região, está bem adaptada ao Collio/Brda desde o início do séc. XIX. Mas a grande casta autóctone deste cantinho sem igual no planeta é a Rebula, ou Ribolla Gialla, do lado de lá da fronteira. Mormente vinificada com maceração das cascas, é um dos vinhos mais “terroir-driven” que conheço. Marjan me ofereceu uma Rebula Opoka assim: “beba o suco do solo, o gosto puro do cheiro da opoka depois da chuva” !!! Realmente é isto, a uva Rebula, com seu perfil mais contido do que exuberante, é um veículo mais do que um protagonista, um fone Sennheiser para se escutar fidedignamente cada dissonante no arranjo da música da terra…

Acompanhar Marjan na sua cantina vale mais do que ler 100 livros sobre os vinhos da Eslovênia!!! Uma experiência totalmente visceral…

E assim me despeço de Brda rumo ao Carso na Itália, para o nosso próximo capítulo na Orange Wine Quest. Deixo para trás um pôr-do-sol dramático nas colinas de Brda, consolado por um retro-gosto de frutas amarelas e laranjas maduras, de feno, flores secas, pedra lascada, queijo e cogumelos da Rebula…

Um lugar chamado Goriška Brda!

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Conheça o Sommelier

Sidney Lucas

Estudioso da gastronomia e vinhos desde 1995, profissionalizou-se como sommelier no ano 2000, desde então realizou trabalhos consistentes em salas de consagrados restaurantes e lojas especializadas pelo país. Prestou serviços a importantes importadoras ministrando cursos e palestras em diversos Estados do Brasil. Integra o time da Decanter desde 2014.

Guilherme Corrêa

Best Brazilian Sommelier 2006 and 2009 - ABS/ASI
Finalist Best Sommelier of the Americas 2009 - APAS/ASI
Sommelier Professionista Associazione Italiana Sommeliers (Regionale Toscana)- AIS
WSET® Diploma Certificate in Wines and Spirits
WSET® Certified Educator in Wines and Spirits