O INDESEJÁVEL CICLO VICIOSO

Já parou para pensar como as repetições em nosso cotidiano nos transforma em elementos quase robotizados? Parece viciar nossa consciência naquela rotina de pensamento que aos poucos vai deixando evidente que quanto mais se repete algo menos se precisa pensar para realizá-las. Muitas das vezes trabalhamos, dirigimos, falamos ou comemos de forma “automática” nos levando a não sentir o prazer que existe no que fazemos no dia-a-dia. Este ciclo vicioso se torna autônomo a ponto de nos tirar o desejo de experimentar algo novo ou rever a forma como realizamos nossas tarefas.

Uma grande parcela dos consumidores de vinhos tem por característica adotar uma cartilha e nunca ou raramente se arrisca a experimentar algo diferente, quando acontece, a maior aventura é sair do Chile e comprar um australiano (o que já é uma mudança!). O problema é quando se está tão “viciado” na rotina de beber sempre os mesmos até que estes se tornem a referência máxima para julgamento dos demais.

O grande barato do vinho é exatamente este gigantesco mosaico de possibilidades que ele permite. A frustração por ter errado na escolha faz parte e torna o ato de beber vinhos ainda mais emocional! Afinal, não se joga um vinho na pia com a ausência de sentimento que se faz com a cerveja.

Se por um acaso você está habituado a não se arriscar na compra de uma garrafa que tenha sido produzido em um país com pouca tradição ou se evita algum vinho por conhecer pouco acerca do local de onde ele venha é certo que estará evitando surpresas desagradáveis, mas também não terá as boas.

Somente no Leste Europeu existem muitos países que produzem verdadeiras maravilhas, portanto, o costume de apenas consumir italianos, franceses, espanhóis… impede que estes tesouros sejam explorados.

Países como Áustria, Eslovênia, Grécia, Hungria e muitos outros são os últimos a virem à mente quando se pensa em vinhos mesmo tendo um histórico vitivinícola de quase três mil anos de tradição. A Croácia, por exemplo, cujas primeiras videiras foram plantadas pelos Fenícios, já exerceu importante papel no cenário do vinho europeu com suas maravilhosas uvas autóctones Plavac Mali e Dobricic (tintas) além da Posip (branca). No caso de Eslovênia, os Celtas já produziam vinhos ali antes dos romanos, tem a região de Primorska como a mais prestigiada do país pela elevada qualidade dos vinhos produzidos, brancos estupendos predominam sem ofuscar os elegantes e profundos tintos. Já na Áustria existe um emaranhado de uvas, vão desde as emblemáticas locais às mais badaladas internacionais como Chardonnay, Pinot Noir, Cabernet Sauvignon… sua maior estrela é a branca Grüner Veltliner, outras nativas de destaque são Zweigelt e Welschriesling. Fonte quase inacabável de estilos, tipos e sabores graças as muitas variedades de castas existentes no país. Os Húngaros começaram a produzir vinhos com Botrytis duzentos anos antes dos franceses e cem anos antes dos alemães. Se não bastasse, fazem também tintos únicos.

Te convido a começar uma viagem por locais pouco comuns, varie, mude, volte ao mesmo, varie novamente, garimpe, decepcione-se, surpreenda-se… faz parte!

6 Respostas para “O INDESEJÁVEL CICLO VICIOSO”

  1. Bruno A Prado

    Boa noite Sidney,

    Meu nome é Bruno e devo lhe dar um puxão de orelha. Não, não referente ao conteúdo, que deixo claro que é excelente ,mas a periodicidade. Faça mais textos. comente mais. Eu sigo seu site há algum tempo e gosto do que aprendi. Sou um aspirante a amante de vinhos. Definitivamente não tenho conteúdo suficiente ainda, contudo estou me empenhando para conseguir ser sempre melhor. Estou pesquisando para abrir em minha cidade uma importadora e por consequência uma revenda de vinhos.
    Mais uma vez, parabéns pelo texto.

    Abraço

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    • Sidney Lucas

      Olá Bruno,

      Obrigado pelo comentário e puxão de orelha. Com certeza teremos ao menos um texto por mês. Boa sorte com seus projetos!

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  2. Nilson Secches

    Gostei do artigo, tema interessante, uma visão geral das uvas, algumas das quais provei e gostei muito, de um grande estímulo para sair da mesmisse. Quem sabe um próximo com os bons produtores!? Obrigado pelos ensinamentos

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    • Sidney Lucas

      Olá Nilson. Obrigado pelos comentários. Quanto aos produtores, entrando no nosso site podes fazer uma busca digitando as uvas citadas no artigo que trará todos os vinhos/produtores relacionados. Abraços. Sidney Lucas

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  3. Lisandro Neis

    Julgamos eficaz nosso jeito de fazer e, raríssimas as vezes, notamos que estamos girando no mesmo ciclo vicioso. Quando se trata de beber ou comer parece que nosso cérebro torna-se “burro” e ineficaz por que sempre nos leva para os mesmos gostos e os mesmos lugares. Treinar o ‘novo’ é saboroso. Provar o ‘novo’ é delicioso!
    Que bom ter você, Sydnei, mais perto, mais firme, mais forte para nos acompanhar, nos orientar e, com isso, continuarmos crescendo como profissionais e como pessoas. Afinal, acordar pela manhã – todas as manhãs – será sempre um novo ciclo e viver deve ser o único vício!

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Conheça o Sommelier

Sidney Lucas

Estudioso da gastronomia e vinhos desde 1995, profissionalizou-se como sommelier no ano 2000, desde então realizou trabalhos consistentes em salas de consagrados restaurantes e lojas especializadas pelo país. Prestou serviços a importantes importadoras ministrando cursos e palestras em diversos Estados do Brasil. Integra o time da Decanter desde 2014.

Guilherme Corrêa

Best Brazilian Sommelier 2006 and 2009 - ABS/ASI
Finalist Best Sommelier of the Americas 2009 - APAS/ASI
Sommelier Professionista Associazione Italiana Sommeliers (Regionale Toscana)- AIS
WSET® Diploma Certificate in Wines and Spirits
WSET® Certified Educator in Wines and Spirits